quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CANDIDATO

Quando menina brincava de pipa. Mas pipa não era de menina, era coisa de menino. Mas menina teimosa, eu seguia na brincadeira. E menino teimoso já aprendia seus privilégios,
Fui aprendendo a matemática da divisão sexual antes mesmo de ir ao colégio:
Eles soltavam pipa e eu soltava sacola, eu era gandula e eles jogavam bola... E se não estivesse satisfeita, que fosse brincar de professorinha, mamãe ou panelinha!
Lembrei os tempos de pipa, de dar helinho, de juntar as varetas, De passar cola, de fazer cerol, de fazer rabiola. As memórias pareciam improváveis, porque nesta situação? Porque a "casa" de Aparecida e
sua família assemelhavam-se as pipas tecidas nas brincadeiras de criança: o plástico negro que deveria
servir de telhado esvoaçava, esgarçados, em frangalhos, como se fossem rabiolas. A casa era a pipa, que pela tessitura ficou pesada e o vento não auxiliava a alçar voo, era feita de retalhos pesados: Madeirit, papelão, placa de candidato... Candidato, filho da puta! A casa não alçava voo por falta de empenho dele, por conta do peso dele...

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